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quarta-feira, 13 de abril de 2016

O que é a ecologia? 3
O ecologismo no cerne do nacional-socialismo

Walter Darre, ministro de Agricultura de Hitler, ecologista,  promoveu o "retorno à terra"
Walter Darre, ministro de Agricultura de Hitler, ecologista,
promoveu o "retorno à terra"
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






continuação do post anterior: O extremismo do fundador superado pelos discípulos


Johann von Thunen (1785-1850), economista e geógrafo alemão, autor do livro “O Estado Isolado” foi considerado o mentor intelectual dos Nacional Socialistas alemães e dos comunistas alemães-orientais do pós-guerra.

Os ecologistas ainda o citam hoje em dia.

Defendia a vida rural camponesa numa estrutura social na qual “o Estado não pode existir enquanto determinante da vida moral, econômica e social.”
Queria a imigração em massa para a América do Norte, onde o solo fértil poderia realizar sua utopia.

“A natureza revela seus segredos ao camponês que traz modificações para a vida social”. A consequência desta filosofia econômica esquerdista na reforma agrária foi mais tarde assumida pelo socialismo de Estado.



Reestruturando o planeta em clave anárquica

A geografia, aparentemente a mais positivista das ciências, suscitou numerosos reformadores sociais, precursores dos ecologistas. De fato, era pequeno o passo que separava a descrição do uso do solo e sua estrutura da recomendação de reformas específicas.

A geopolítica, disciplina inventada por Halford Mackinder e Karl Haushofer, elaborou o conceito de Raubwirtschaft ou da “economia exploradora”.

Já em 1905, Elisée Reclus, anarquista francês, escrevera uma obra em 19 volumes para provar o “efeito quase exclusivamente destrutivo do homem sobre o meio ambiente”.

O estudioso franco-russo, Eduard Petrie, escreveu em 1883 que a colonização de estilo ocidental destruiu não apenas o ambiente físico, mas a cultura e o espíritoetocídio das tribos primitivas.

Outro importante radical destas primeiras correntes ecológicas foi Patrick Geddes (1832-1932), defensor encarniçado da volta-ao-solo descentralizadora.

Geddes esperava que a sociedade moderna iria abandonar a produção industrial e o uso de energia, passando para o uso “biológico” de energia tendo a aldeia como modelo social. Desejava fundar uma nova sociedade descentralizada com base no binômio camponês-aldeia.

O planejamento de casas e aldeias, de regiões e nações era o objetivo de Lewis Mumford, discípulo de Geddes.

Em 1940 advogou o estabelecimento de um governo mundial para reordenar a população da terra de modo mais belo e eficiente. A principal tarefa do século XX seria reestruturar o planeta...

A despeito dos repetidos fracassos do planejamento social, a ecologia política caiu no paradoxo de manter a crença de que o homem é capaz de interferir benevolamente na vida de outro homem.

A importância dos ecologistas energéticos reside no fato de que eles estabeleceram as bases para o cálculo do futuro das sociedades humanas. Embora muitos fossem ainda eurocêntricos, alguns já eram tão universalistas e anti-ocidentais quanto os ecologistas de hoje.

Alguns deles foram socialistas libertários, inspirados por Morris ou Ruskin, defensores da aldeia e da sociedade camponesa.

Todos eles acreditavam em reformas baseadas em cálculos científicos e em sua própria visão de decadência e desastre.

Todos eram racionalistas, todos rejeitavam as instituições políticas vigentes, advogando um governo mundial por meio de instituições apolíticas.

Quando a crise do petróleo ameaçou o Ocidente no início da década de 70, reapareceram os mesmos argumentos acerca dos recursos finitos, bem como os mesmos planos para reestruturar a sociedade, de molde a fazer o uso mais econômico possível do solo e da energia.

Reforma agrária e utopia ambientalista

O ecologismo do início do século XX defendia a ideia de que trabalhador rural deve possuir a terra em que trabalha.

Porque a reforma agrária significa a partilha das grandes propriedades, era vista como um movimento de esquerda. Na Inglaterra, os grupos pró reforma agrária eram constituídos de pessoas provenientes da classe média alta.

Rudolf Steiner e o III Reich

Que importância as ideias ecológicas tiveram para o III Reich?

É difícil avaliar como o nazismo foi visto em diferentes épocas por seus apoiadores.

Existe um corpo de discursos e livros que esboçam a ideologia nazista, mas longe de serem completos.

Os discursos de Hitler nunca foram colecionados e publicados na íntegra, mesmo no original alemão. Do que existe, pode-se porém deduzir uma ideologia.

Felizmente, não é preciso esticar um mosquito para mostrar que havia um veio de ideias ecológicas entre os nazistas.

A prova é ampla; ela existe nos arquivos ministeriais e pessoais do III Reich.

Uma discussão sobre as ideias verdes e ecológicas, presentes no nazismo, está fadada a ter um efeito explosivo. Há também possíveis consequências políticas.

O Partido Verde na Alemanha de hoje é popular entre muitos intelectuais descontentes, por parecer puro e não tisnado pelo passado. É um potencial aliado do SPD, e portanto opositor da Democracia Cristã de direita.

Os verdes adotaram as posições da extrema esquerda: feminismo, igualitarismo e agitação anti-nuclear.

Uma ligação entre as ideias verdes em moda atualmente e o nazismo poderia suscitar incômodos e até mesmo vitupérios.

Houve dois níveis de apoio à ecologia no III Reich. O primeiro, a nível ministerial; o segundo, a nível administrativo, nos órgãos do Partido.

Os dois ministros simpáticos às ideias ecológicas foram Rudolf Hess e Walter Darre, líder camponês e Ministro da Agricultura entre 1932 e 1942.

Fritz Todt, presidente da Organização Todt, era também um ecologista. Hess era seguidor de Rudolf Steiner e homeopata.

O escritório de Hess empregava diversos ecologistas, entre os quais Anthony Ludovici, que escreveu largamente sobre a necessidade de um uso planejado da terra, orgânico e ecologicamente equilibrado.

Havia milhares de fazendeiros bio-dinâmicos alistados na “Guerra da Produção” nazista.

Blut und Boden (Sangue e Solo) era a organização de Darre
Tamanho era o número dos alternativos ligados a Hess na Chancelaria que Martin Bormann fez circular um memorando pedindo o fim dos “círculos ocultos e confessionais”.

Isto mostra a frincha dentro do Nacional Socialismo entre os homens práticos e os alternativos, individualistas rebeldes contra as estruturas da República de Weimar e que trouxeram suas crenças para o III Reich.

A Alemanha nazista foi o primeiro país da Europa a formar reservas naturais.

Foi o primeiro país a insistir na plantação de árvores de espécie mista para conservar o equilíbrio ecológico; a introduzir leis para proteger o habitat da vida selvagem etc.

Apesar de a Alemanha ter — segundo se acreditava — uma carência aguda de terras, era considerado sacrossanto o solo arborizado.

Quando parte da Polônia foi incorporada à Alemanha em 1939, 25% de todas as terras aráveis foram reservadas para serem florestadas. Na década de 30, 2/5 de todo o solo alemão estava reservado para florestas.

A folha de carvalho era o símbolo das SS.

Houve tensão entre a Alemanha e a Itália quando Mussolini insistiu em continuar cortando árvores no Sul do Tirol.

A era do camponês integrado na terra

Entre as duas grandes guerras havia se difundido a ideia de que o campesinato tinha uma missão “especial”.

Rudolf Steiner, fundador da antroposofia, inspirou em 1925, uma nova escola de agricultura bio-dinâmica que visava a preservar o espírito do solo e cuidar para que este fosse arado de acordo com sua teoria de forças-vivas e influências magnéticas do cosmos.

Os fertilizantes artificiais eram rejeitados enquanto coisa morta feita pelo homem.

A terra era um ser vivo: o solo, seu olho ou orelha. A agricultura deveria fazer parte de uma unidade orgânica mundo-terra.

Depois do voo de Hess para a Inglaterra, o movimento bio-dinâmico foi perseguido.

Todos os que estavam ligados às ideias de Hess — homeopatas e naturistas — tornaram-se suspeitos.

Walter Darre, Ministro da Agricultura, devotou seus dois últimos anos a fazer campanha em prol das fazendas orgânicas, em sentido contrário à vontade de Backe, Bormann e Goering.

Um terço da liderança nazista apoiou a campanha de Darre; outro terço era favorável às ideias orgânicas, mas negou-se a apoiá-las devido a suas ligações com Rudolf Steiner e as ideias antroposóficas; e o terço restante foi hostil.

Himmler exigiu leis anti-vivisecção.
Himmler exigiu leis contra a vivisecção.
Himmler fundou fazendas orgânicas experimentais para plantar ervas para os remédios dos SS.

O diretor do Bureau SS para Raças e Colonização, Gustav Pancke, visitou a Polônia em 1939 para criar fazendas orgânicas.

Por insistência de Himmler, foram aprovadas leis anti-vivisecção.

O treinamento dos SS incluía aprender a respeitar a vida animal.

À maneira dos ecologistas de hoje, os nazistas se opunham ao capitalismo e ao sistema de mercado orientado para o consumidor.


Com seu programa “Volta à terra” o III Reich alcançou seus maiores sucessos e fracassos ecológicos.

O programa de colonização era essencial para os planos nazistas de criar uma Alemanha rural.

Ele iria varrer a antiga nobreza por meio da reforma agrária e estabelecer uma nova nobreza camponesa.

O ímpeto retórico dos nazistas agrários radicais voltava-se para a formação de uma Alemanha que integrasse uma Internacional Camponesa da Europa do Norte, onde as fazendas seriam dirigidas de acordo com o alvitre dos comitês de conselheiros locais.

Tal retórica, comportando um ataque em larga escala contra a economia capitalista e o direito de propriedade, defendia que o comércio exterior e a industrialização haviam sido elaborados por capitalistas manipuladores para forçar as populações rurais a confluírem para as cidades.

O sistema industrial teria sido construído para impedir as autonomias locais e a autossuficiência. O remédio seria a total ruralização da Alemanha.

O fracasso militar na II Guerra Mundial pôs fim às tentativas, mas não à utopia.

(Excertos de: Anna Bramwell, “Ecology in the 20th Century, A History”, Yale University Press, New Haven, Ct., and London, 1989).



Um comentário:

  1. Fascist Ecology: The 'Green Wing' of the Nazi Party and its Historical Antecedents in Germany". In "Ecofascism: Lessons from the German experience," by Janet Biehl and Peter Staudenmaier, 1995.

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